Quarenta e Dois Decibéis de Exorcismo -(ato IV)

Assaltantes de banco são os tipos de bandidos mais respeitados pelos colegas de cadeia. Ao contrário dos estupradores, que, dizem, tem seus cuzinhos comidos lá dentro, assaltantes de banco tem uma puta moral nos presídios. Isso porque todos sabem que banqueiro & ladrão são a mesma coisa. Sempre se soube de histórias de pessoas que deviam os tubos a bancos e cometeram suicídio. Crise financeira sempre foi a maior causa dos suicídios. Eu diria que bancos são contra a vida: definitivamente são lugares do mal.
Depois da aventura das vidraças quem ficou com seqüelas físicas fui eu. O nariz todo vermelho de ralar no asfalto & o cotovelo direito doendo e inchado. Queria agora alguma coisa com menos riscos de tombos. O Fábio não cabe em si, de tanto orgulho do nobre destino que seus poemas tiveram. Está Feliz & definitivamente convertido aos Distúrbios Cotidianos.
- Me sinto um rei, um monarca dos meus atos loucos.
- Viajão!
- Você não tem espelho, não?
- Meu espelho são meus atos, neles eu me reconheço, rárárá!
Fábio já é um típico chato contador de vantagens, depois de sábado então, ninguém atura mais suas explosões de lirismo de boteco.
- Pessoal, eu tava afim de uma coisa mais light durante a semana.
- Que foi, Ari, tá com medo?
- Mais ou menos, sábado foi muito foda.
- O quê então?
- Tava afim de abençoar um banco de novo.
Vinicius, que tinha achado engraçada a história do dia em que eu tinha me vestido de padre e entrado num banco, concordou no ato.
- Claro véio! Tô doido pra participar de um negócio desses!
- Quero ser o coroinha, falou o Jean.
- Eu faço um catecismo, com uma capa louca!!- Gritou o Sergio da cozinha, onde estava fazendo uma de suas indefectíveis tortas de maçã.
O Fábio mora em Colombo e sua mãe é costureira, entreguei meu vestidão preto de 27 Reais que ainda estou devendo na firma, pra mãe dele dar um jeito pra que fique o mais parecido possível com uma batina. Ele diria à mãe que era pra uma apresentação de teatro. Não deixa de ser. O Sergio ia fazer umas hóstias, dessa vez ia ter que ter hóstias. Superprodução, com participação do time completo.
O alvo seria o Banco Santander da Av. Floriano, durante a semana na hora do almoço, quando todos estivessem livres de seus Trabalhos Forçados ou Aulas Alienantes.
A batina ficou espetacular, tinha até uma cruz prateada bordada no peito. Jean conseguiu outro candelabro de prata que tinha roubado da casa da Juliane, um vidrinho vazio de óleo de oliva importado para a água-benta e uma roupa para atuar de coroinha. Quando tentei exorcizar um banco, fui logo expulso do local porque minha roupa era altamente mandrake e minha água-benta estava numa garrafa de Coca-cola, tava na cara que eu não era um padre.
Agora seria diferente, nossa indumentária era decente. Vinicius queria ser o padre, ficou dois dias decorando umas passagens do Apocalipse e rabiscando sermões.
O sermão do caixa-eletrônico. O sermão da fila organizada. O sermão do saldo zero e por aí vai. Eu, o Fábio & o Sergio seríamos os fiéis penitentes, inadimplentes do Imposto de Renda.
- Não pagamos impostos, mas amamos Jesus Cristo Nosso Senhor.
Nos encontramos em frente ao banco cinco para o meio dia. Logo na entrada: o saguão dos caixas-eletrônicos. O Vini/Padre andava lentamente e com uma expressão grave inacreditável. Usava uma barba postiça e uns óculos redondinhos pra lá de cômicos. Quase caímos na gargalhada quando o vimos. O Jean de cabeça baixa, com a humildade conveniente a um coroinha iniciante, hilário. Aproximaram-se do primeiro caixa.
- Que Deus abençoe e livre a alma de quem se aproxima desta máquina criada para o mal.
Uma menina que estava no caixa ao lado deu uma risadinha, mas logo tapou com a palma da mão. Um senhor idoso, que estava mais longe e que não estava conseguindo digitar seus dados direito, perguntou surpreso:
- O quê?!
- Que Deus perdoe a pobre criatura, cientista ou engenheiro não sei do quê, que projetou esta máquina satânica.
Todo mundo no saguão já estava olhando. O padre entoava umas orações com a voz baixa, quase sussurrando enquanto o coroinha abençoava as máquinas com sua água-benta. Uma das meninas que auxiliam os clientes chegou perto, toda educada & com um sorriso magnífico.
- Posso lhe ajudar em alguma coisa senhor?
- Deus lhe abençoe minha filha, como entro na agência?
- Pela porta rotatória, senhor, se tiver carregando alguma coisa metálica, como um molho de chaves por exemplo ou telefone celular, deixe na janelinha ao lado está bem?
- Obrigado.
Deixaram os apetrechos de metal na janelinha e entraram sob o olhar desconfiadíssimo do guarda de segurança. Eu e os outros olhamos de longe e entramos logo depois. O Padre & Seu Coroinha distribuíram os catecismos aos clientes que estavam na fila. O catecismo trava-se de um cartão dobrado ao meio, com um desenho colorido do Sergio na capa e com o seguinte texto dentro:
"A maior parte do dinheiro no mundo não existe, não tem ligação alguma com nada material. No entanto, tem uma influência decisiva nas coisas materiais. Inclusive em nossas vidas. Essa é a mais perfeita descrição de uma entidade espiritual. Uma entidade do bem certamente não é, dadas as desgraças que o dinheiro causa ao mundo. Com certeza essa entidade não está do lado de Deus. É um demônio, trazendo a miséria & a injustiça ao mundo. A fome, as guerras & o sofrimento.
O dinheiro é o mal”.
Um catecismo simples, mas eficiente. Todo mundo na fila comentava algo com o vizinho, uns rindo e outros com sinais de reprovação. Alguém deve ter dado a ordem, pois uma atendendente veio imediatamente acompanhar o Reverendo Vinicius e Seu Coroinha.
- Não esqueçam, irmãos! Deus reserva o perdão às almas arrependidas. A entrada do céu é estreita, porém não se cobra ingresso, não há consumação e o Paraíso é infinito.
- Amém! - exclamamos eu, o Fábio e o Sérgio, cada um em um ponto estratégico da agência, formando um triângulo.
A questão é que se a princípio a gerência deixou nosso teatrinho rolar solto, era porque não sabia se se tratava de um padre mesmo ou não. Jamais um gerente de banco iria faltar com educação com um padre na frente de seus clientes. Só que depois que o "padre" começou com aquele sermão estranhíssimo ficou claro que alguma coisa estava errada.
- Você está com oitocentos e não sei quantos reais negativos na conta? Não se preocupe, Deus não consulta o SPC.
O Jean estava distribuindo as hóstias aos sorridentes clientes que visivelmente estavam adorando o sermão do simpático pároco anticapitalista, quando o gerente aproximou-se. Mas o Universo de repente conspirou a nosso favor e na hora que o gerente falaria, uma senhora baixinha com uns 70 anos o interrompeu.
- Padre, Deus que me perdoe, mas acabei brigando com meu neto por não lhe dar o dinheiro que ele queria.
- Acalme-se minha senhora, sem saber, a senhora o ajudou.
- Mas senhor... (o gerente parecia atônito, muito mais que o gerente da C&A do dia das macarronadas)... Vamos conversar um pouco?
- Conversar o quê, irmão?
Então um dos guardas de segurança passou pra ele um exemplar de nossos catecismos. Ele pôs os óculos e leu em silêncio, compenetrado. O negócio durou uns segundinhos apenas e o gerente olhou pro lado em direção a três seguranças que, no fundo da agência, já estavam doidinhos pra serem chamados. O maior deles veio correndo.
- Estes rapazes resolveram “brincar” de padre no lugar errado, chame por favor um policial que está de plantão do outro lado da rua.
Sujeitinho esperto e decidido, se ligou mesmo que era sacanagem nossa. Tirei o chapéu pra ele, mas de nossa parte resolvemos tirar o time de campo e zarpamos pela porta rotatória. O Jean mandou sua função de coroinha à merda e tentou sair pela tangente rapidinho também. Na hora em que estava saindo da agência o segurança grandão o agarrou pela roupa de coroinha.
- Onde pensa que vai?
- Tenho que voltar ao trabalho...
- Não sem ouvir umas verdades antes.
Então, na maior das intolerâncias, deu um tapa na cara do Jean, tão forte que o coitado chegou cair de costas no chão. Fábio viu o que estava acontecendo e voltamos correndo pro banco.
- Solta o cara, seu otário, ele não fez mal algum!
- Não se meta!!
- Me meto sim, não gosto de injustiças.
Enquanto o Fábio discutia com o segurança, eu e o Sergio juntamos nosso colega e o arrastamos pra fora, fingindo que ele estava mal, muito mal. Os clientes que assistiram a cena ainda nos olharam atravessar a rua e sumir de vista, logo depois veio o Fábio.
- Sujeitinho babaca, você tá bem Jean?
- Tranqüilo, não foi nada, só um susto.
O Vinicius ficou sozinho e deu um monte de explicações ao gerente, na tentativa dele não chamar a polícia. Falou que era um seminarista novato e que acreditava em cada vírgula do que tinha dito e que curtia a Teologia da Libertação e que, por favor, pelo amor de Deus, não fizesse nada que seus superiores pudessem descobrir e que jurava que estava fazendo a coisa certa e que Deus abençoa as almas sinceras e mais uma porrada de coisas. Encheu tanto o saco do coitado do gerente com sua ladainha que acabou se safando.
Acabou ficando por isso mesmo, o policial chegou a entrar no banco, mas o gerente pediu para deixar quieto, que a situação estava sobre controle e que o jovenzinho estava apenas um pouco nervoso. Quer dizer, mais ou menos por isso mesmo, a velhinha que tinha negado dinheiro ao neto virou sua devota, ficou dando tchauzinhos e jogando beijinhos enquanto ele saía do banco. Acreditou mesmo na parada. E a mina da risadinha do caixa-eletrônico, se engraçou no Vini e curtiu a cena toda do início ao fim.
Nos encontramos todos no termômetro da Praça Rui Barbosa. Foi divertido pra caralho, o tipo de história que fica melhor conforme se lembra e conforme se conta. O termômetro da Rui Barbosa tem uma parada que marca os decibéis pra medir o nível de ruído da praça. Berramos de felicidade e fizemos um duelo de gritos feito uns retardados.
Jean, trinta e cinco decibéis acima do que estava marcando. Sergio e Fabio empataram, trinta e oito decibéis cada um. Eu tomei no cú, trinta e três decibéis, estava rouco.
O grande vencedor: o Padre Louco, São Vinicius, padroeiro dos cara de pau, quarenta e dois decibéis.


Retirado do livro "Manual de Deliquência Juvenil"

(Gosta de escrever? Nos envie seu texto: escritorloucoecia@gmail.com)

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4 comentários:

Renan Sparrow 4 de setembro de 2009 21:17  

Li tudo, gostei.
Porém não pesquei o sentindo disso...
No fianl você "começou" a usar palavrões e na narração.
Acho mais interessantes usá-los nas falas dos personagens

:)

Rogerio 5 de setembro de 2009 06:00  

Eu também não pesquei o sentido geral do texto, mas de todo jeito é uma boa narração.

Betinho Cerri 5 de setembro de 2009 06:34  

é, o final, começo usar palavrao d+!
mais a narração tah loka!
parabens!

Leeet 5 de setembro de 2009 13:51  

gostei muito do blog.
além de comentar aqui.
to seguindo :)

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